Já estava me secando, pensando no que ia tomar de café da manhã, quando - sabe-se lá porque - resolvi arrumar o tapete do box; uma empurradinha com o pé foi o suficiente para uma resvalada seguida de queda com tudo no chão. Assustada, com o barrigão pra cima e uma dor no cotovelo, chequei o principal - sem sangue, sem perda de liquidos, uma contração leve. Minha tia vem correndo da cozinha, nessas altura a pressão dela já devia estar no dedão do pé e eu, ainda meio sem acreditar que tinha mesmo caído um baita tombo com 37 semanas de gestação, procurei acalmá-la. Liga pra mãe, vamos pro Hospital de Clínicas, tenho que passar em casa antes, taxi demora, transito lento... lá se vai quase uma hora depois do tombo e chegamos na emergência do Centro Obstétrico.
Já não mais afobada, ainda meio sem crer no que tinha acontecido, tenho que continuar esperando. Duas mulheres na minha frente. Duas diabetes gestacionais. Duas possíveis cesáreas. Duas desejando cesárea... "ai, ainda ter que induzir é muito ruim, por favor, quero ir direto pra cesárea". Sem contrações, sem o rosto característico de uma mulher em trabalho de parto.
Me chamam para consulta lá pelas 10, umas duas horas depois do tombo. Um aprendiz de médico entra, depois de me mandarem tirar a parte de baixo e deitar na tal mesinha; ele senta na frente do computador e começa a me fazer uma série de perguntas (me pergunto por que, afinal de contas, estou deitada nessa mesa mesmo?); sento. Respondo meus muitos "nãos" sobre doenças crônicas, histórico familiar e tudomais. Relato mais uma vez como foi o tombo - não, não tive sangramento, não tive perda de líquido aparente, movimentos fetais normais, uma contração leve após a queda. Deito, ouvimos os batimentos cardíacos da nenê, mede barriga, faz o toque; batimentos ótimos, sem dilatação. Ok, tudo certo, posso me vestir? Não, a residente vai querer dar uma olhada. Foi aí que comecei a me dar conta de onde estava e que, ali, protocolos devem ser seguidos. Fico um pouco nervosa, vou ao banheiro e, quando chego na salinha novamente, minha mãe está questionando se eu realmente preciso ficar 4 horas em observação. QUATRO HORAS. Mas não tá tudo bem? Não podemos te dizer sem fazer esses exames... quatro horas dentro do hospital... e se eu entro em trabalho de parto mesmo estando tudo bem? Fico, não fico? E se não estiver tudo bem como eu sinto... a responsabilidade recaí toda sobre mim e a decisão que vou tomar naquele momento toma proporções gigantescas. Entendo as mulheres que se submetem a procedimentos absurdos e desnecessário... é mais fácil transferir para uma equipe médica essa responsabilidade - se, se, se... se acontecer qualquer coisa a culpa não foi minha...
Já não mais afobada, ainda meio sem crer no que tinha acontecido, tenho que continuar esperando. Duas mulheres na minha frente. Duas diabetes gestacionais. Duas possíveis cesáreas. Duas desejando cesárea... "ai, ainda ter que induzir é muito ruim, por favor, quero ir direto pra cesárea". Sem contrações, sem o rosto característico de uma mulher em trabalho de parto.
Me chamam para consulta lá pelas 10, umas duas horas depois do tombo. Um aprendiz de médico entra, depois de me mandarem tirar a parte de baixo e deitar na tal mesinha; ele senta na frente do computador e começa a me fazer uma série de perguntas (me pergunto por que, afinal de contas, estou deitada nessa mesa mesmo?); sento. Respondo meus muitos "nãos" sobre doenças crônicas, histórico familiar e tudomais. Relato mais uma vez como foi o tombo - não, não tive sangramento, não tive perda de líquido aparente, movimentos fetais normais, uma contração leve após a queda. Deito, ouvimos os batimentos cardíacos da nenê, mede barriga, faz o toque; batimentos ótimos, sem dilatação. Ok, tudo certo, posso me vestir? Não, a residente vai querer dar uma olhada. Foi aí que comecei a me dar conta de onde estava e que, ali, protocolos devem ser seguidos. Fico um pouco nervosa, vou ao banheiro e, quando chego na salinha novamente, minha mãe está questionando se eu realmente preciso ficar 4 horas em observação. QUATRO HORAS. Mas não tá tudo bem? Não podemos te dizer sem fazer esses exames... quatro horas dentro do hospital... e se eu entro em trabalho de parto mesmo estando tudo bem? Fico, não fico? E se não estiver tudo bem como eu sinto... a responsabilidade recaí toda sobre mim e a decisão que vou tomar naquele momento toma proporções gigantescas. Entendo as mulheres que se submetem a procedimentos absurdos e desnecessário... é mais fácil transferir para uma equipe médica essa responsabilidade - se, se, se... se acontecer qualquer coisa a culpa não foi minha...
Fico. Me encaminham para uma sala de observação. Estou nervosa, a estupidez de um dos médicos me deixa ainda mais nervosa - então não devia nem ter vindo! - as palavras dele ressoam na minha cabeça, toda a calma de horas antes se foi. Sento em uma poltrona, minha mãe fica comigo apesar de pedirem que ela se retire mais de uma vez. Colocam o equipamento que monitora o coração do bebê e mede as contrações. Me deixam com aquelas amarras uma meia hora. Batimentos perfeitos, somente algumas contrações fracas e normais, faremos uma eco de emergência pra ver se não houve deslocamento de placenta e se o líquido está normal. Espero. As horas passam de um jeito diferente lá dentro. Fome. Quero comer. Preciso comer. Não, não posso comer... essa é a informação que a enfermeira nos dá, nem eu nem nenhuma das outras mulheres da sala. OK, mas por quê? Vocês tem exames pra fazer, é isso que dizem. Fico nervosa de novo - só tenho que fazer uma eco! - minha mãe diz pra eu me acalmar, agora que estou ali tenho que respeitar as pessoas, o lugar... me acalmo. Sem comida. Espero.
Logo minha mãe já está conversando com a mulherada. Fico ouvindo, estou no canto da sala, nem as enxergo direito. Algumas são de outras cidades e começam a contar como é complicado o transporte da prefeitura, como os motoristas são mal preparados; cada vez que elas vão para uma consulta ficam aflitas sem saber se quando forem liberadas a condução ainda estará lá esperando ou não. Daqui a pouco entra uma agitada, está com o carro do prefeito, mas por que foi lá reclamar - ela não para de falar, me deixa cansada de tanto que fala. Está com 38 semanas, mas se não vier semana que vem vai induzir, já tem até data, nem consegue mais dormir direito, a barriga pesa muito e ela está ansiosa (sim, isso eu percebi). Como um corte profundo e doloroso um choro invade o C.O., um choro desesperado, um grito do fundo do peito com palavras que tentam negar algo. A conversa para por ali, afinal, o que está acontecendo? Entra na sala uma moça aparentemente muito humilde, o choro dela dói em mim, mesmo que eu não a veja do lugar onde estou. Ouço as enfermeiras discutindo o que fazer com ela - mas o que eu digo pra ela? sei lá, conversa com ela... tem que chamar alguém da psico. Uma delas entra na sala e a leva pra fora - vamos dar um passeio no C.O. - e o choro continua, agora mais longe. Acéfalo. 39 semanas e ela descobriu que o bebê que ela nutriu e carregou esse tempo todo em seu ventre é acéfalo. Respiro fundo e tento não prestar mais atenção nas conversas que recomeçaram. Acéfalo... Aquele choro desamparado ainda pode ser ouvido... ninguém daquela equipe é preparado para uma situação assim, ninguém ali poderia dizer nada que consolasse aquela mãe, nada. Mais um corte nos meus pensamentos, entra na sala uma moça que estava na sala de espera quando eu estava tranquila esperando atendimento. No seu rosto tranquilidade; ela respira profundamente controlando as dores das contrações, cada respiração dela me dá um alívio, me sinto cheia de vida novamente; logo essa mulher vai ter seu bebê no colo e ela sabe disso e sente a cada minuto que esse momento se aproxima, no seu rosto, um sorriso; esse sorriso, como o choro daquela mulher, ninguém pode lhe tirar. Algum tempo depois (horas?) ela vai para a sala de parto, hoje ela deve estar repleta de felicidade com um nenê lindo no colo. Naquele momento imaginei a Íris se preparando pra vir, sabia que estava tudo bem com ela. Só faltava fazer a tal ecografia.
Já eram mais de 5 horas da tarde e a enfermeira chega com um copo de café com leite e um pão com margarina. Ela mal nos entregou a comida (eu já tinha mandado todo o café e já estava em vias de comer o pão) quando chegaram pra nos levar até o lugar onde fazem as ecografias. Fora umas NOVE HORAS sem comer por absolutamente NENHUM motivo. Eu já nem me sentia mais mal por causa do tal tombo há 9 horas atrás, eu já estava vesga de fome, com um rombo no estômago e minutos antes de fazer a eco elas me deixam comer. Maldito descaso. Descemos, em seguida me chamaram pra fazer a "ecografia de emergência", tudo mais do que bem com a Íris... a médica achou que o abdomen dela estava fora dos padrões (só pra assustar um pouco a vó) e quando trouxe o resultado da eco disse que depois de verificar o peso e a medida do fêmur viu que na verdade ela é compridinha mesmo, está tudo bem. Está tudo bem... Sim, eu sei, eu sabia desde o momento que me vi estirada no chão. Agora posso ir pra casa, comer muito e curtir minha dor na bunda. Na liberação a médica disse pra eu voltar caso sentisse dor, contrações fortes, se tivesse perda de líquido... Não, não pretendo voltar lá tão cedo; aliás, pretendo não voltar mais. Tchau Centro Obstétrico, valeu pelo café com leite super adoçado.
Logo minha mãe já está conversando com a mulherada. Fico ouvindo, estou no canto da sala, nem as enxergo direito. Algumas são de outras cidades e começam a contar como é complicado o transporte da prefeitura, como os motoristas são mal preparados; cada vez que elas vão para uma consulta ficam aflitas sem saber se quando forem liberadas a condução ainda estará lá esperando ou não. Daqui a pouco entra uma agitada, está com o carro do prefeito, mas por que foi lá reclamar - ela não para de falar, me deixa cansada de tanto que fala. Está com 38 semanas, mas se não vier semana que vem vai induzir, já tem até data, nem consegue mais dormir direito, a barriga pesa muito e ela está ansiosa (sim, isso eu percebi). Como um corte profundo e doloroso um choro invade o C.O., um choro desesperado, um grito do fundo do peito com palavras que tentam negar algo. A conversa para por ali, afinal, o que está acontecendo? Entra na sala uma moça aparentemente muito humilde, o choro dela dói em mim, mesmo que eu não a veja do lugar onde estou. Ouço as enfermeiras discutindo o que fazer com ela - mas o que eu digo pra ela? sei lá, conversa com ela... tem que chamar alguém da psico. Uma delas entra na sala e a leva pra fora - vamos dar um passeio no C.O. - e o choro continua, agora mais longe. Acéfalo. 39 semanas e ela descobriu que o bebê que ela nutriu e carregou esse tempo todo em seu ventre é acéfalo. Respiro fundo e tento não prestar mais atenção nas conversas que recomeçaram. Acéfalo... Aquele choro desamparado ainda pode ser ouvido... ninguém daquela equipe é preparado para uma situação assim, ninguém ali poderia dizer nada que consolasse aquela mãe, nada. Mais um corte nos meus pensamentos, entra na sala uma moça que estava na sala de espera quando eu estava tranquila esperando atendimento. No seu rosto tranquilidade; ela respira profundamente controlando as dores das contrações, cada respiração dela me dá um alívio, me sinto cheia de vida novamente; logo essa mulher vai ter seu bebê no colo e ela sabe disso e sente a cada minuto que esse momento se aproxima, no seu rosto, um sorriso; esse sorriso, como o choro daquela mulher, ninguém pode lhe tirar. Algum tempo depois (horas?) ela vai para a sala de parto, hoje ela deve estar repleta de felicidade com um nenê lindo no colo. Naquele momento imaginei a Íris se preparando pra vir, sabia que estava tudo bem com ela. Só faltava fazer a tal ecografia.
Já eram mais de 5 horas da tarde e a enfermeira chega com um copo de café com leite e um pão com margarina. Ela mal nos entregou a comida (eu já tinha mandado todo o café e já estava em vias de comer o pão) quando chegaram pra nos levar até o lugar onde fazem as ecografias. Fora umas NOVE HORAS sem comer por absolutamente NENHUM motivo. Eu já nem me sentia mais mal por causa do tal tombo há 9 horas atrás, eu já estava vesga de fome, com um rombo no estômago e minutos antes de fazer a eco elas me deixam comer. Maldito descaso. Descemos, em seguida me chamaram pra fazer a "ecografia de emergência", tudo mais do que bem com a Íris... a médica achou que o abdomen dela estava fora dos padrões (só pra assustar um pouco a vó) e quando trouxe o resultado da eco disse que depois de verificar o peso e a medida do fêmur viu que na verdade ela é compridinha mesmo, está tudo bem. Está tudo bem... Sim, eu sei, eu sabia desde o momento que me vi estirada no chão. Agora posso ir pra casa, comer muito e curtir minha dor na bunda. Na liberação a médica disse pra eu voltar caso sentisse dor, contrações fortes, se tivesse perda de líquido... Não, não pretendo voltar lá tão cedo; aliás, pretendo não voltar mais. Tchau Centro Obstétrico, valeu pelo café com leite super adoçado.

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