Eu tenho um pé de romã. Desde nossos primeiros anos juntos ele sempre foi mirradinho, facilmente atacado por formigas e, durante muito tempo, não deu nenhum fruto. Muito novinho? Será que ainda não está na época de dar frutos? Mas eu via por aí pezinhos pequenos com romãs enormes pesando os galhos frágeis da arvorezinha... e o meu pé de romã nem era mais tão pequenino assim!
Acontece que ele não é um pé de romã qualquer. Não só por que me foi presenteado e por isso o chamo de meu - quando na verdade ele é ligado a mim e não propriamente meu. Ligado a mim... acho que é a primeira vez que penso na nossa relação assim. A nossa história começa quando a menina Lua estava começando um novo ciclo em sua meninice. Um momento que constrange muitas meninas, que enche outras tantas de expectativa, mas que, invariavelmente, é repleto de mistérios, tanto para as que esperam ansiosas quanto para as que abominam e tem medo. Mas que tal de novo ciclo era esse? Ora, acredito que vocês - principalmente mulheres - já sabem o que é. Eu tinha meus 12 anos há uns dez anos atrás e tinha passado pela minha menarca. Lembro que achava uma bobagem o modo com as colegas de aula tratavam a primeira menstruação. Tinham as adultinhas, que vestiam calça coladinha e eram as preferidas dos meninos e por isso todos achavam que elas já tinham menstruado; se elas sabiam que alguma das meninas mais tímidas já estava andando com absorventes escondidos no casaco e na mochila, logo elas davam um jeito de espalhar para a turma inteira que a fulaninha já menstruava. Tinham as que se encolhiam só de ouvir falar em absorvente. Minha melhor amiga, com pais médicos e sempre muito curiosa, ia atrás das informações biológicas por trás do acontecimento super esperado e nós dividíamos essas informações... eu... eu sabia que aconteceria no meu tempo e que não seria um problema.
Assim foi. Um belo dia aconteceu. A matraca da minha amada mãe, que foi quem me fez encarar os ciclos femininos com um olhar de encantamento e naturalidade, na mesma hora, saiu correndo contar para o meu pai (devo ter ficado da cor do sangue na calcinha) e disse que me daria um presente. Não, não recebi o tal presente... não naquele momento e não como ele me foi prometido. Foi melhor que isso! Tive a oportunidade única de participar de um rito de passagem, de menina para moça, no grupo de mulheres que a minha mãe e a mãe da minha melhor amiga faziam parte. Do ritual em si, lembro-me de poucas coisas. Dançamos em roda, fomos abençoadas, nossas dindas lavaram nossos pés com pétalas de rosas e nos deram um diário, ganhamos um colar em forma de lua crescente que nos foi presenteado pelos pais (acho) e uma mudinha, no meu caso, de romã. Uma arvorezinha que seria regada com nosso sangue e acompanharia nossos ciclos.
Viu! Eu disse que não era um pé de romã qualquer! Nesse ritual e nos meses que se seguiram fomos sendo profundamente ligadas, eu e minha arvorezinha. Ano após ano, sem nenhum fruto... até um pouco mais de um ano atrás. A Lua não mais donzela é agora mãe... na lua cheia como manda o figurino, com um amor... ahh... um amor imenso brotando de dentro para fora e sendo continuamente inspirado de fora para dentro. Um ser lindo foi sendo gerado, semana após semana e a minha arvorezinha, não mais tão pequenina, carregou durante 9 meses um pequeno fruto em seus galhos não mais tão frágeis. Um pequeno e único fruto.
Um dia um vento danado soprou lá pras bandas de Belém Novo, onde meu pé de romã cresce. A minha mãe não teve dúvida, foi dar uma olhadinha na Romã Íris (um frutinho com nome!) e ela ainda estava lá, agarradinha nos galhos agitados pelo vento. Só que o vento foi danado mesmo e acabou arrancando o fruto do pé, o pequeno e único fruto. Por esquecimento eu não soube naquele dia da queda da Romã Íris, mas nossa ligação se mostrou mesmo bem forte e no dia seguinte eu caí. Que susto! Susto maior ainda levou a vó da Íris que achou que eu tinha sido influenciada pela história do dia anterior... mas que história? Eu não sabia de nada... caí de madura no banheiro e (ufa) nada além de um sufocante dia no hospital de clínicas aconteceu.
A pequena Íris esperou a lua cheia, bem no dia que combinamos com ela. A queda não passou batida não! Foram os fantasmas familiares que mandaram um medinho a mais e nosso bebê resolveu se revirar toda no barrigão e vir ao mundo de ladinho. E que vinda ao mundo! Em casa, com o pai parindo junto da mãe, com pessoas mais que especiais, em uma linda celebração da vida. Experiência transformadora, que me fez sentir a força da mulher que sempre tive dentro de mim. A romãzeira? Deu muitos frutos nesse ano, frutos enormes em galhos fortes cheios de folhas verdes.
quinta-feira, 24 de maio de 2012
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